11 outubro 2011

... poderia ser uma nota

Humanos.

Concordo (com o Nuno), somos os animais mais interessantes do Mundo. Somos, no entanto e antes de mais... animais. E, como animais, tal como todos os outros de todas as outras espécies, nascemos com uma série de características intrínsecas ao que somos. Gostamos de ter o que queremos, quando e onde queremos, e só estamos dispostos a abdicar disso se houver outro animal (maior!) que se atravesse no caminho.

Em segundo lugar, porém, somos racionais. A razão torna os outros importantes, e torna as coisas dos outros medidas de comparação. Em suma, e sem mais nada, somos animais racionais egoístas e egocêntricos, vaidosos e narcisistas, orgulhosos e invejosos. Por natureza!

Televisão.

Não há dúvida que a televisão é o meio de comunicação por excelência. Não se põe qualquer questão ao poder que têm sobre as pessoas. Melhor e mais rapidamente que qualquer outro meio ou instrumento em que se possa pensar ou inventar, com certeza a televisão consegue mudar mentalidades, personalidades, ambições, modas, desejos, costumes, morais.

Numa linha direita de raciocínio, seria então normal e directo que a televisão fosse utilizada de forma a influenciar positivamente tudo o que pode influenciar.

No entanto, não é o que acontece. E a TVI tem mais audiência que a RTP. E os melhores trabalham na TVI, a publicidade é mais cara na TVI, toda a gente vê a TVI porque a TVI explora a vida das pessoas, porque apela ao ódio, à pena, ao medo, à repugnância, às lágrimas, porque nos faz sonhar com as “notícias” que transmite. Porque aposta em dar ênfase a tudo quanto é desgraça. Porque publicita tudo quanto é amoral e o trata como normal. E pronto.

(A quem considerar injusto falar da TVI – ou apenas da TVI – mil perdões.)

Incentivos

Gosto de pensar que tudo o que acontece é consequência de um conjunto de incentivos. E é-me mais fácil expôr o que penso se o fizer através de uma análise dos incentivos que causam e que deviam causar o que quer que seja.

Ora bem, pensando num canal televisivo enquanto empresa que precisa de share porque precisa de dinheiro, e porque quanto mais share conseguir mais e mais cara publicidade terá, e tendo em conta que dinheiro cria dinheiro e que tudo isto é um ciclo, em que programas devemos apostar? Nos programas que cativem os humanos que analisámos em cima.

Ora bem, estes humanos que descrevi, seres de instinto e cobiça e vaidade, sabem de cor a vida da Lili Caneças e os nomes de mil personalidades (?), mas não sabem quem é o ministro da economia. Compram revistas para ver as rugas da Cinha Jardim mas não gastam dinheiro em livros para os filhos. Têm mais orgulho no carro que na família. Estes humanos vão para o café explicar aos mais novos como enganam as mulheres (eu sei, porque vi). Criticam para se auto-elogiarem e atiram pedras aos telhados dos outros porque não se lembram do vidro com que construíram os seus.

É a estes humanos que os programas de televisão têm que agradar, porque são eles que indirectamente lhe pagam os ordenados e os motoristas e as festas.

Conclusão

Associando a os incentivos que temos aos humanos que somos, eis que surgem programas como a Casa dos Segredos. E faz todo o sentido do ponto de vista lógico.

Escolheram a dedo os concorrentes (já deixei de acreditar que são apenas bons actores!), que ficam contentes por aparecer, ganhar fama e dinheiro fácil e por se divertirem uns com os outros – à maneira deles.

Em casa, uns ficam presos ao ecrã e admitem o vício. Ganham carinho a uns e raiva a outros e vivem a vida deles porque é mais interessante (?) que a sua.

Outros dizem que não gostam e que só vêem para ver a vergonha que é e conhecer as pessoas que temos. E criticam as mulheres e os homens e mostram como são tão superiores a eles todos e como nunca participariam num programa assim – a verdade é que houve 8000 que efectivamente tentaram! É este grupo que inventa anedotas que comparam gente a mobília... e na realidade é este o grupo que mais contribui para o preço da publicidade na TVI. Louvados sejam.

Continua, depois, a haver grupos que não vêem nem conhecem porque não têm tempo. E grupos que têm vergonha de ver – ou porque são mais velhos, ou porque têm filhos, ou porque são mais conservadores. Destes, claro, muitos veriam se pudessem.

Bem, e a verdade é que não Documentário que tenha sequer hipótese de entrar no ringue da Casa dos Segredos! E portanto é a Casa dos Segredos que passa diariamente (em horário nobre, correcto?) na TVI. E é isto que os portugueses vêem depois de jantar. E dada a influência que a televisão tem, não preciso acrescentar mais nada... tudo é um ciclo.

Nota

Houve um tema no qual não toquei quando falei em seres humanos e que de alguma forma influenciou tudo o resto – a educação. A civilização.

Acontece que além de animais racionais somos seres civilizados, somos seres sociais e educados, com morais e costumes mais ou menos enraizados. É essa educação que substitui o animal maior quando se fala em instintos. É essa educação que altera a lógica automática incentivo – acção.

Porque temos irmãos e filhos e amigos. E a educação ensina o respeito e a compaixão e as regras sociais. E porque queremos todos ser melhores e mais felizes. Porque e a cultura e a aprendizagem importam.

(...)

Enfim, a verdade é que não escrevi sobre isto porque não fez falta. Tentei encaixar o tema, mas não fazia sentido. A realidade define-se perfeitamente com a lógica descrita. Possivelmente esta nota é mesmo só uma nota. Ou menos. Uma “poderia ser” uma nota. Ou a abertura de uma excepção que não tem importância para estar no corpo do texto.


* As minhas desculpas ao Nuno por repetir o tema... não resisti! :)

2 comentários:

António J. B. Ramalho disse...

EXCELENTE

Carina Mendes disse...

Fico contente que tenha tido paciência para lê-lo... e que tenha gostado! :)

Carina