16 abril 2014

Teve que ser.

Ler coisas que escrevemos aproxima-nos do que sentimos e, em última análise, do que fomos num determinado momento. Ultimamente, esta janela tem servido esse propósito único: tem sido uma janela que me deixa ver "lá para trás", e tanto concordo comigo mesma como me pareço ridícula, ou demasiado intensa, ou demasiado inocente, ou demasiado ou muito pouco de mais uma série de outras coisas.
 
Esta foi o meu penúltimo (agora antepenúltimo!) post - ou desabafo, como gostava, e gosto, de lhes chamar:
 
 
A Carina de hoje olha para isto como uma grande misturada.
Sim, o tempo continua a assustar-me, tanto ou mais do que nessa altura. Mas essa história de "no fundo já era a Carina que hei-de ser para sempre" parece-me uma grande, grande, mas mesmo (!) uma grandessíssima asneira. Tenho a certeza que é uma grandessíssima asneira pois bastaram dois anos desde que o escrevi para o desacreditar completamente e... por outro lado, espero que seja e que continue sempre a ser isso mesmo: uma grandessíssima asneira. Por mim e por nós todos - qual é a piada, qual é o propósito de não mudar?
 
É isto.
Talvez por me assustar mais a possibilidade remota de permanência e preservação de uma Carina qualquer, a de ontem ou a de amanhã, que o próprio passar do tempo - e por ambas as coisas estarem tão intimamente relacionadas - tive que escrever. Aqui. (E não foi fácil, dois anos é muito tempo para recordar uma password!)
 
PS: Nuno:
1) Estive quase - quase - a informar-te/pedir-te para voltar a escrever aqui.
2) As janelas querem-se abertas (principalmente com o bom tempo que vamos tendo por aqui!), e... uma a mais nunca é demais. :)




12 março 2012

O Ricardo

Tinha acabado de me sentar no jardim e preparava-me para começar a ler quando o Ricardo me encontrou. Perguntou-me as horas. 16h30. Continuou a olhar-me nos olhos e disse-me que gostava de me conhecer para sermos amigos. A medo e mais atrapalhada que de costume, disse-lhe o meu nome, larguei as revistas e decidi ser amiga do Ricardo.

Durante a hora seguinte, o Ricardo contou-me que pratica desporto, faz Pilates e anda numa espécie de triciclo sem pedais e com apoio para as costas. Quer participar no campeonato internacional, que este ano é em Portugal, mas há um mês e meio que não pratica porque tem estado de castigo (uma brincadeira de mau gosto no facebook...) e, segundo ele, se não o deixarem treinar o suficiente e na altura não estiver preparado, prefere não participar. Ponto assente.
Contou-me também sobre um livro que anda a ler, que fala sobre pessoas e sobre demónios e que segundo ele "é difícil de entender e meio estranho" para quem não conhece o tema. Percebi-o envergonhado e não tentei saber mais.

O Ricardo tem 31 anos e sofre de paralisia cerebral. Está num Centro de Dia mas prefere passear pela cidade ou pelo centro comercial e não resiste ao sol, ainda que a monitora se zangue. Desconfio que anda à procura da namorada com quem sonha: simpática, bonita, "e não é por nada, mas preferia que não andasse de cadeira de rodas".

Apesar dos 31, o Ricardo sorri como uma criança, com a cara toda. Os olhos têm vida e as gargalhadas fluem. Olhou-me nos olhos com um brilho especial, mais tempo do que normalmente consigo suportar. É honesto, é genuíno, é entusiasmado com o que de bom lhe dá a vida.

Despedimo-nos com mais um sorriso. E por mais vontade que tenha tido de chorar, não chorei. Sorri! Sorri porque sou uma sortuda: o Ricardo encontrou-me e ofereceu-me bem mais do que pensei conseguir esta tarde. Abriu-me o coração, ensinou-me alegria.

01 março 2012

Desabafo barato de alguém que não faz nada há quinze dias

Assim que fiz 20, lembro-me que comecei a fazer contas e percebi que já tinha vivido (pelo menos) um quinto da minha vida. Que possivelmente já tinha feito mais de um quinto das escolhas importantes que hei-de ter que fazer. E que no fundo já era a Carina que hei-de ser para sempre. E também percebi que não me tinha preparado para isso, nunca antes dos 20 pensei a longo prazo ou com atenção às consequências, nunca pensei no tamanho das consequências.

E é quase ridículo dizê-lo, mas nada me assusta como o tempo. Aliás, como perder tempo! Pior: dedicar tempo demais a opções erradas, porque tudo demora tanto tempo... O erro, a descoberta, o luto, a nova escolha. Assusta-me chegar ao fim do dia, do mês, do ano, e não ter feito o que planeei fazer. Ou perceber que fiz pouco, que não aproveitei o tempo, que não fiz por merecê-lo.

É aquilo que de mais precioso temos. Mais necessário. E mais escasso. E mais “escorregadio”. Mesmo em momentos nos quais demora a passar, ele passa e não volta mais. É irrecuperável. O dia de hoje é irrecuperável e, daqui em diante, nunca mais posso fazer o que quer que seja nele, arrependa-me ou não do que deixei lá.

E nada me assusta como arrepender-me de ter perdido “um dia de hoje”, por isso mesmo: posso recuperar quase tudo o resto, menos o tempo.



28 fevereiro 2012

Contos ingénuos I

Se houvesse um mercado de valores morais, daqueles que toda a gente fala e preza no companheiro e amigo do lado, qual seria o preço de alguns?
Chateia-me o preço do petróleo estar sempre a subir, ora porque a procura aumenta, ora porque a oferta diminui. São leis de mercado. Só porque se comercializa?
Não percebo. A procura por aqueles valores é alta, diz-se por aí que toda a gente os quer. Eu quero. Será que é porque toda a gente os tem? Do lado da oferta, desconfiança. Pode ser uma externalidade.
Bem, que se faça um mercado para negociarmos. Eu dou o nome "Genuíno".

06 fevereiro 2012

Amigos de copos e de petiscos, não há como nós

31 de Janeiro. Durante os 50 minutos que demorei na fila para comprar o passe, e já nem sei a que propósito, conheci um senhor na casa dos setenta que me contou, entre outras coisas menos relevantes para aqui, como há umas décadas atrás um alemão lhe explicou o futuro que o país havia de tomar. Disse-lhe esse alemão, engenheiro principal numa grande obra em Beja (trabalhador exemplar, repetiu-me vezes sem conta), que para amigos de copos e de petiscos não conhecia ninguém como os portugueses, mas que éramos um povo com três defeitos tão enraizados que por mais ajuda e dinheiros que viessem da CEE nunca havíamos de sair da cepa torta. Ganhei interesse ao ouvir falar em três defeitos tão importantes. Três defeitos? Egoístas, vaidosos e pouco amigos de trabalhar. Ficou-me no ouvido.

E apesar de não concordar com a grande maioria do discurso do senhor da fila para o passe, apesar de não gostar nem um pouco de fazer generalizações e apesar de considerar ridículo que cada português individualmente fale dos defeitos dos outros todos como se se tratasse de um povo à parte... apesar de tudo, não consigo deixar de pensar no que disse o tal engenheiro e em como havia de ter alguma razão.

14 janeiro 2012

speakers: 100% (com. muito. repeat)

É perfeitamente razoável achar que em determinado momento aquela música pode ainda fazer mais sentido se o volume estiver mais alto. É perfeitamente natural que já esteja no limite. É perfeitamente aceitável que o primeiro sentimento seja a desilusão após 3 frustradas tentativas. O segundo a aceitação da desilusão. O terceiro a contemplação da mesma música com o volume possível. Isto não tem qualquer outra interpretação. É emociono-factual!
"Factual" é quando passas muito tempo (vá, muitos meses. E no Inverno cada mês vale por dois do Verão. Ou o contrário. Mas no Inferno é uma eternidade), sem fazer perguntas a ti mesmo. "Emociono" é quando fazes as perguntas erradas. As duas dependem da mesma pessoa.


Agora, silêncio. 
Levanta o som.    


15 novembro 2011

FP

Aos 14 decorei um poema de Fernando Pessoa que sei até hoje.

Não sei quantas almas tenho.

Cada momento mudei.

Continuamente me estranho.

Nunca me vi nem achei.

(...)

Sou minha própria paisagem,
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Na altura fiquei fascinada com a clareza da exposição de uma dúvida que me começava a atormentar: que raio era ser “eu própria”, afinal? Sabia que o certo era ser genuína. E ainda hoje é essa a característica que mais admiro nos outros: a ingenuidade, a personalidade genuína que algumas pessoas conseguem manter, independentemente de tudo.

Mas e quanto a mim? Que genuína? Conseguia, e consigo, pensar em mim de mil formas diferentes. Imaginar-me na mesma situação de mil maneiras diferentes, todas verdadeiras. Sonhar mil vidas distintas que gostaria de viver. Mais: viver de mil formas diferentes, agir de mil formas diferentes, todas minhas, todas reais. Adoptar mil estilos, mil personalidades, mil crenças, mil conjuntos de características, todos eles diferentes, todos eles perfeitos. Qualquer um deles. A verdade é que desde cedo houve muitos “eus”. Cresci e cada um deles cresceu comigo. Um nota-se mais hoje, sonho com o outro amanhã e não é de todo possível simplesmente escolher um, para sempre. No dia-a-dia vou optando ou cedendo, reconhecendo-me ou não, mudando ou não, querendo ou não ser o que sou, arrependendo-me ou não do que fui. Analisando. Ajustando-me. Às pessoas, aos locais, ao que me exigem, ao que acho certo ou errado ou ao que quero que pensem. Em cada momento. É conforme. E é tão assustador como genial. Como a clareza louca de Fernando Pessoa. Não é falsidade nem falta de coerência... sou eu. Tudo isso. E, tal como pareceu acontecer com FP e possivelmente acontece com muitos de nós (excepção para os genuínos que frisei em cima), continua a existir este eu que assiste ao que se passa. Este parece ser sempre o mesmo. Menos mal.

31 outubro 2011

(Re)Conhecer.

Nem falo nos outros. Quem se conhecer a si próprio, melhor, quem se reconhecer a si próprio há-de conseguir o que quiser. Conhecer, reconhecer no verdadeiro sentido das palavras, ou em todos os sentidos que tenham e possam vir a ter. De verdade. Cada segundo de cada sonho, cada intuito obscuro de cada acto. Cada cinismo, cada inveja, cada orgulho. Cada aspiração, todas as ambições. (Re)Conhecer o mais ínfimo pormenor. Os porquês, cada palavra, cada pessoa que nos levou a querer, a sentir, a crer, a fazer, a sofrer. Cada consequência e cada sequência de sentimentos e de vivências que nos tornaram no que somos. Cada reacção e cada raiva. Cada amor, a razão dos amores, a razão de os esquecermos. Ou não. Cada objectivo. Cada ressaca, de tudo. E como ultrapassámos, e como não ultrapassámos. E porquê. Quem ajudou e a quem agradecemos. E porquê. Os remorsos. Os sapos. Os príncipes e as vezes que engolimos em seco. E as opções. Os ressentimentos. As escolhas, os motivos das escolhas, o resultado das escolhas. Os obstáculos. As metas. Os pensamentos, os semi-pensamentos, as fugas. Todas as fugas. A ansiedade das primeiras vezes, em tudo. Nós, Borboletas no estômago. E como as mantivemos. E porque as afastámos. As vitórias. Justas ou não. Merecidas ou não. E quanto gostamos de nós e quanto gostamos que gostem e porquê. O presente. Os desejos e as rezas ao fim do dia. O bem e o mal que desejamos, a nós e a todos. E a tudo. E porquê. Tudo. Honestamente. Quem se reconhecer a si próprio, sabe liderar-se a si próprio. E ganha a si próprio. E há-de conseguir tudo o que quiser.


GMT

Podia ter qualquer coisa a ver com fusos horários, mas não... É uma sugestão. Aliás, uma grande sugestão: 

Gonçalo M. Tavares.

Comecei agora: "Se quiser números, podemos brincar aos números: a felicidade individual de um dia depende, vá lá, 70% da eficácia material das máquinas. Que a felicidade invisível esteja submetida a uma felicidade concreta, a uma felicidade de materiais em diálogo, de peças metálicas que encaixam umas nas outras e resolvem problemas fazendo determinadas tarefas, como tal pode parecer estranho; mas é o século. Ser feliz já não depende de coisas que vulgarmente associamos à palavra Espírito. Depende de matérias concretas. A felicidade humana é um mecanismo."

25 outubro 2011

... 99% ?







Fotografias de 16 de Outubro

Acredito piamente que estes 99% são menos do que gostariam e que o 1% que sobra é bem maior do que se faz perceber. Esta suposta minoria tem a noção da situação em que estamos e de como cá chegámos. Sabe que o exemplo das forças políticas tem sido o pior e que aproximadamente 100% dos portugueses souberam adoptar e aplicar tal exemplo de forma estupenda. Sabe que há culpas maiores e menores mas que no fundo, actores ou cúmplices, somos todos culpados. É o Estado que paga ao Estado e o Estado somos todos. Decidimos democraticamente os maus caminhos que quisemos seguir, ganhámos todos mais do que devíamos, pagámos todos menos do que devíamos. Como aconteceria em qualquer casa, temos uma dívida. 100% de nós. E caso não paguemos o que devemos acontece o que aconteceria, mais uma vez, em qualquer casa – o financiamento termina, os juros aumentam, as prestações acumulam-se, a confiança desaparece, abrimos falência. Vivemos com o que temos em casa.

Estou a dispersar-me. A minha mensagem é que existe uma parte da população que, embora não faça tanto alarido, tem conhecimento e opiniões formadas. Sabe que não poderíamos continuar como estávamos, que não podemos de forma alguma voltar atrás e que a solução tem que passar por uma série de ajustamentos, essencialmente ao nível das remunerações reais vs produtividade. No curto prazo, a alternativa ao ajustamentos dos salários, tendo como fim o aumento urgente da competitividade, é despedir pessoas. Não há outra forma de aumentarmos a competitividade com a urgência necessária se não aumentarmos a produtividade, e no curto prazo em que temos que agir só há uma forma de o fazer: cortar nos custos de produção. Ou ajustamos os salários ou o número absoluto de trabalhadores.

Esta suposta minoria sabe apesar de podermos sempre redistribuir os ajustamentos, de forma mais ou menos justa, estes não podem deixar de existir. E sabe, portanto, que o caminho que estamos a iniciar é um caminho sem alternativas viáveis possíveis. E sabe que a melhor maneira de o transformar num caminho efectivamente acertado é ajudando na construção de soluções, discutindo ideias e sugestões e, essencialmente, participando na reconquista da confiança do exterior. A confiança dos nossos credores e possíveis futuros financiadores, tal como de investidores e potenciais investidores, e tal como de grande parte dos talentos que temos no país, depende do Estado, de todos. E o Estado depende em grande parte de todos eles.

Os 99% que descrevi acima, fazem o que se vê. Estão à rasca, dizem eles. Perdoem-me, à rasca estamos todos. Entretanto, se somos ou não rascas, este é o tempo de decidirmos. Individualmente e no todo. Todo o Estado. Portugal.

20 outubro 2011

Gosto...

Gosto de pessoas com sonhos. Não os sonhos comuns que sonhamos e esquecemos, mas sim os sonhos que comandam a vida. É necessária uma boa dose de inocência para deixar a vida nas mãos dos sonhos. Ou levar a vida de acordo com os sonhos. Fazer dos sonhos objectivos. Não falo da inocência ignorante mas sim da inocência em acreditar que é possível... é possível fazer mais, querer mais, os sonhos são possíveis. A felicidade é possível.

Gosto de sonhos. E de inocência. E de pessoas, felizes.

11 outubro 2011

... poderia ser uma nota

Humanos.

Concordo (com o Nuno), somos os animais mais interessantes do Mundo. Somos, no entanto e antes de mais... animais. E, como animais, tal como todos os outros de todas as outras espécies, nascemos com uma série de características intrínsecas ao que somos. Gostamos de ter o que queremos, quando e onde queremos, e só estamos dispostos a abdicar disso se houver outro animal (maior!) que se atravesse no caminho.

Em segundo lugar, porém, somos racionais. A razão torna os outros importantes, e torna as coisas dos outros medidas de comparação. Em suma, e sem mais nada, somos animais racionais egoístas e egocêntricos, vaidosos e narcisistas, orgulhosos e invejosos. Por natureza!

Televisão.

Não há dúvida que a televisão é o meio de comunicação por excelência. Não se põe qualquer questão ao poder que têm sobre as pessoas. Melhor e mais rapidamente que qualquer outro meio ou instrumento em que se possa pensar ou inventar, com certeza a televisão consegue mudar mentalidades, personalidades, ambições, modas, desejos, costumes, morais.

Numa linha direita de raciocínio, seria então normal e directo que a televisão fosse utilizada de forma a influenciar positivamente tudo o que pode influenciar.

No entanto, não é o que acontece. E a TVI tem mais audiência que a RTP. E os melhores trabalham na TVI, a publicidade é mais cara na TVI, toda a gente vê a TVI porque a TVI explora a vida das pessoas, porque apela ao ódio, à pena, ao medo, à repugnância, às lágrimas, porque nos faz sonhar com as “notícias” que transmite. Porque aposta em dar ênfase a tudo quanto é desgraça. Porque publicita tudo quanto é amoral e o trata como normal. E pronto.

(A quem considerar injusto falar da TVI – ou apenas da TVI – mil perdões.)

Incentivos

Gosto de pensar que tudo o que acontece é consequência de um conjunto de incentivos. E é-me mais fácil expôr o que penso se o fizer através de uma análise dos incentivos que causam e que deviam causar o que quer que seja.

Ora bem, pensando num canal televisivo enquanto empresa que precisa de share porque precisa de dinheiro, e porque quanto mais share conseguir mais e mais cara publicidade terá, e tendo em conta que dinheiro cria dinheiro e que tudo isto é um ciclo, em que programas devemos apostar? Nos programas que cativem os humanos que analisámos em cima.

Ora bem, estes humanos que descrevi, seres de instinto e cobiça e vaidade, sabem de cor a vida da Lili Caneças e os nomes de mil personalidades (?), mas não sabem quem é o ministro da economia. Compram revistas para ver as rugas da Cinha Jardim mas não gastam dinheiro em livros para os filhos. Têm mais orgulho no carro que na família. Estes humanos vão para o café explicar aos mais novos como enganam as mulheres (eu sei, porque vi). Criticam para se auto-elogiarem e atiram pedras aos telhados dos outros porque não se lembram do vidro com que construíram os seus.

É a estes humanos que os programas de televisão têm que agradar, porque são eles que indirectamente lhe pagam os ordenados e os motoristas e as festas.

Conclusão

Associando a os incentivos que temos aos humanos que somos, eis que surgem programas como a Casa dos Segredos. E faz todo o sentido do ponto de vista lógico.

Escolheram a dedo os concorrentes (já deixei de acreditar que são apenas bons actores!), que ficam contentes por aparecer, ganhar fama e dinheiro fácil e por se divertirem uns com os outros – à maneira deles.

Em casa, uns ficam presos ao ecrã e admitem o vício. Ganham carinho a uns e raiva a outros e vivem a vida deles porque é mais interessante (?) que a sua.

Outros dizem que não gostam e que só vêem para ver a vergonha que é e conhecer as pessoas que temos. E criticam as mulheres e os homens e mostram como são tão superiores a eles todos e como nunca participariam num programa assim – a verdade é que houve 8000 que efectivamente tentaram! É este grupo que inventa anedotas que comparam gente a mobília... e na realidade é este o grupo que mais contribui para o preço da publicidade na TVI. Louvados sejam.

Continua, depois, a haver grupos que não vêem nem conhecem porque não têm tempo. E grupos que têm vergonha de ver – ou porque são mais velhos, ou porque têm filhos, ou porque são mais conservadores. Destes, claro, muitos veriam se pudessem.

Bem, e a verdade é que não Documentário que tenha sequer hipótese de entrar no ringue da Casa dos Segredos! E portanto é a Casa dos Segredos que passa diariamente (em horário nobre, correcto?) na TVI. E é isto que os portugueses vêem depois de jantar. E dada a influência que a televisão tem, não preciso acrescentar mais nada... tudo é um ciclo.

Nota

Houve um tema no qual não toquei quando falei em seres humanos e que de alguma forma influenciou tudo o resto – a educação. A civilização.

Acontece que além de animais racionais somos seres civilizados, somos seres sociais e educados, com morais e costumes mais ou menos enraizados. É essa educação que substitui o animal maior quando se fala em instintos. É essa educação que altera a lógica automática incentivo – acção.

Porque temos irmãos e filhos e amigos. E a educação ensina o respeito e a compaixão e as regras sociais. E porque queremos todos ser melhores e mais felizes. Porque e a cultura e a aprendizagem importam.

(...)

Enfim, a verdade é que não escrevi sobre isto porque não fez falta. Tentei encaixar o tema, mas não fazia sentido. A realidade define-se perfeitamente com a lógica descrita. Possivelmente esta nota é mesmo só uma nota. Ou menos. Uma “poderia ser” uma nota. Ou a abertura de uma excepção que não tem importância para estar no corpo do texto.


* As minhas desculpas ao Nuno por repetir o tema... não resisti! :)